"Tenho 80 outdoors." A frase parece precisa e não é. Ela pode significar 80 estruturas com 80 faces, 80 estruturas com 160 faces, ou 45 locais com 80 estruturas. Cada leitura leva a um faturamento diferente.
O inventário de mídia exterior tem três níveis, e eles não são detalhe de cadastro. São entidades distintas, com dono, custo e ciclo de vida próprios.
Local: o espaço de terceiro
O local é o terreno baldio, a empena do prédio, o telhado, a fachada da loja. Quase sempre pertence a outra pessoa, e é o objeto do contrato de locação. É no local que moram o aluguel, o reajuste anual, o prazo de vigência, a carência e a cláusula que diz o que acontece se o proprietário vender o imóvel.
O contrato do local também define o que a exibidora paga além do aluguel. O setor trabalha com pelo menos seis formas de contrapartida pelo espaço: aluguel fixo, aluguel condicionado à ocupação, percentual da receita, cessão de parte da grade ao proprietário, permuta e benefício mútuo. Um cadastro que só tem um campo de valor não representa metade dos contratos reais.
Estrutura: o ativo
A estrutura é o que foi construído no local: o outdoor de três pilares, o frontlight, o painel rodoviário, a tabuleta, a tela. É patrimônio da exibidora, tem custo de construção, depreciação, manutenção e um ciclo de vida que vai de prospecção e licenciamento até construção, operação, inativação e baixa.
A estrutura é também o que responde pelo alvará, pela ART e pela apólice. E é o que pode ser trocado: derrubar um outdoor de madeira e erguer um metálico no mesmo terreno não cria um ponto novo, substitui a estrutura de um local que continua o mesmo, com o mesmo contrato.
Face: o que se vende
A face é cada lado visível de uma via. Uma tabuleta tem duas. Um triedro tem três, e as três podem estar vendidas para anunciantes diferentes na mesma bi-semana. A face é a linha da grade, é o item do pedido de inserção, é o que tem preço, classe comercial, fluxo e audiência.
Duas faces da mesma estrutura não valem o mesmo. Elas apontam para sentidos opostos, e o fluxo é atributo da via e do sentido, não do ponto. A face voltada para quem entra na cidade pela manhã tem audiência diferente da que aponta para quem sai à noite. Cobrar o mesmo preço pelas duas é deixar dinheiro na mesa de um lado e travar a venda do outro.
O que quebra quando os três viram um só
Sistema que funde local, estrutura e face numa única tabela costuma parecer suficiente até o primeiro caso real:
- Triedro: não há como registrar três disponibilidades independentes para um único registro;
- Troca de estrutura: ou se perde o histórico do ponto, ou se cria um ponto novo e o contrato de locação fica órfão;
- Custo por face: o aluguel é do local e precisa ser rateado entre as faces para se saber a rentabilidade de cada uma;
- Documentação: o alvará é da estrutura, o contrato é do local, e a foto de checking é da face. Tudo num registro só significa nada arquivado direito.
Separar os três níveis custa três tabelas no início do projeto. Fundir os três custa uma migração de dados depois, com o inventário já em produção e a operação vendendo em cima dele.